sexta-feira, 4 de julho de 2008

amoroso esquecimento

Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

Mário Quintana

quarta-feira, 18 de junho de 2008

naufrágio

Afinal preciso lutar, mas com a certeza,
De nunca mais me enganar,
Nunca mais voltar a amar,
Para nunca mais naufragar...

quarta-feira, 7 de maio de 2008

a um ausente

"Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescênciade viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o acto sem continuação, o acto em si,
o acto que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste. "

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 13 de abril de 2008

Pablo Neruda [adaptado]

Morre lentamente quem não viaja
. sendo que as unicas viagens duram cerca de 30 minutos, entao estou a morrer

Quem não lê,
. sendo que estou há mais de um ano para acabar um livro, entao estou a morrer

Quem não ouve música,
. sendo que a musica que eu oiço nao me faz crescer mentalmente, entao estou a morrer

Quem não encontra graça em si mesmo.
. sendo que nao me acho nada de especial, entao estou a morrer

Morre lentamente,
Quem destrói seu amor próprio,
. sendo que nunca tive muito, entao estou a morrer

Quem não se deixa ajudar.
.sendo que sempre disse que nunca precisei de ninguem, entao estou a morrer

Morre lentamente,
Quem se transforma em escravo do hábito,
Repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
.sendo que nao tenho coragem de arriscar em ir por sitios que nao conheco, entao estou a morrer

Quem não muda de marca,
.sendo que sou extremamente teimosa para mudar qualquer coisa que seja, entao estou a morrer

Não se arrisca a vestir uma nova cor,
. sendo que nao posso vestir uma cor qualquer porque ela pode nao me favorecer, entao estou a morrer

Ou não conversa com quem não conhece.
. sendo que so converso com quem nao conheco quando já nao estou no meu estado normal, entao estou a morrer

Morre lentamente,
Quem evita uma paixão e seu redemoinho de emoções,
Justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
E os corações aos tropeços.
.sendo que estou desde há muito tempo sem acreditar no amor e todos os sentimentos estupidos que traz com ele, entao estou a morrer

Morre lentamente,
Quem não vira a mesa quando está infeliz,
Com o seu trabalho, ou amor,
.sendo que nunca irei ir virar a mesa porque terei que limpar tudo o que deitei ao chao, entao estou a morrer

Quem não arrisca o certo pelo incerto,
Para ir atrás de um sonho,
.sendo que tenho em mim uma preguiça enorme que nao me deixa ir atras de nada, esperando sempre que as coisas venham ate mim, entao estou a morrer

Quem não se permite,
Pelo menos uma vez na vida,
Fugir dos conselhos sensatos…
.sendo que nenhum dos conselhos que me dao parecem resultar, entao estou a morrer




Contudo, o que vale é que estou a morrer mas...

é lentamente.

sábado, 5 de abril de 2008

fernando pessoa

Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não ?

Não sei.
Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido.
Mas tão de leve !...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa
Incompreendida...

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
'Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço ?

Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

quarta-feira, 19 de março de 2008

coisas que eu sei...



Coisas que eu sei
Eu adivinho
Sem ninguém ter me contado


Eu gosto do meu quarto
Do meu desarrumado
Ninguém sabe mexer
Na minha confusão
É o meu ponto de vista
Não aceito turistas
Meu mundo tá fechado
Pra visitação...



Se eu for eu vou assim
Não vou trocar de roupa


Eu moro num cenário
Do lado imaginário
Eu entro e saio sempre
Quando tou a fim...



Coisas que eu sei
São coisas que antes
Eu somente não sabia...

sexta-feira, 7 de março de 2008

humpf..

tudo se torna tao complicado quando as palavras nao sao suficientes para explicar toda a confusao de sentimentos que vai aqui dentro.
de um momento para o outro passo de um enorme sentimento de culpa a um sentimento de raiva, de nostalgia, de tristeza, de coragem...tudo é tao inconstante.
as vezes so queria ter um pouco mais de coragem. nao ter medo das consequencias. nao ter medo de arriscar. entrar num comboio e partir, para longe. conhecer novos lugares. fazer novas memorias. tudo isto sabendo que iria perder tudo o que deixei para tras, mas sentindo-me bem com isso mesmo.
espero por um momento em que esse sentimento de loucura surja e eu possa entao pegar numa mochila, dinheiro, musica, maquina fotografica e entre num comboio para um lugar diferente.
talvez o meu mal (um dos meus males) seja esse mesmo. esperar. eu espero, nao faço nada para que isso aconteça. espero. e vejo quase a vida a passar-me bem ao longe, mas eu espero que ela venha ter comigo e insista comigo para eu ir com ela. aí irei, depois de ela ter quase implorado para eu ir, sim porque eu sou teimosa e mimada demais para ir logo a primeira, preciso sempre de um pouco mais de atençao que todos os outros.
mas depois aposto que a minha mimalhice iria subir ao seu extremo e eu teria que voltar para casa. a procura daquele apoio, daquele conforto, daqueles braços abertos prontos a receberem-me de volta, daquelas palavras que me aconchegam o meu ego e me fazem sorrir de contentação. e entao iria ver que o lugar mais longe que eu tinha ido naquela viagem, foram apenas as duas estaçoes seguintes...